“Ele”

28 01 2009

Como de costume, acordei pela manhã e fui até o espelho, então notei que “ele” não estava nada bem. Semblante pesado e olhar sem brilho, “ele” estava tão ruim que parecia sem força e vulnerável, pois tudo que eu fazia “ele” repetia, tudo isto sem reivindicar nada, apenas aceitando. Decidi que precisava fazer algo!

Levei-o até o sofá da sala e de posse de uma chave de fenda eu abri a “sua” cabeça. Identifiquei vários problemas: a memória estava com defeitos, a fonte oscilava muito e não enviava energia suficiente, abrindo-a encontrei alguns fusíveis queimados. O cooler que arrefecia o processador não era adequado, logo superaquecia o equipamento, afetando sua vida útil. A pilha da placa-mãe estava fraca, também pudera, há tempos que “ele” não conseguia guardar datas e cumprir seus compromissos no horário. A placa de vídeo também estava com defeitos, pois “ele” via tudo monocromático. Em fim, à base de produtos químicos realizei um upgrade no hardware, porém os problemas continuaram.

Mudei o foco, decidi trabalhar no software e fui diretamente ao banco de dados. Abri o MySQL Query Browser e analisei a estrutura das tabelas, lá encontrei inúmeras triggers, que ao atualizar uma tabela qualquer, disparava atualizações em várias outras, sobrecarregando o sistema. Fiquei atônito. Havia também store procedures perniciosas, que ao entrar algum dado, tratava-o de maneira incorreta e gerava um registro inválido e que afetava a integridade referencial da tabela.

As tabelas da vida estavam repletas de dados ruins. Após alguns comandos drop, delete e update, notei que o comportamento anômalo continuava. Cheguei a amarga conclusão: tenho que formatar!

Formatar era a única alternativa plausível a esta altura. Há muito, “ele” não se comunicava corretamente com os “outros computadores” em rede, porém “seu” sistema operacional era muito superior aos demais.

Iniciei o processo, mas em meio a instalação ocorreu um erro em tempo de execução: a biblioteca sonhos.dll estava corrompida. Não havia escolha a não ser inutilizar o equipamento.

Nesta fase volta-se às origens: enquanto todos são de carne e osso, morrem e viram pó, “ele” é de silício e volta a ser areia. Sim, neste processo “ele” se tornou exatos sessenta e cinco quilos de areia, distribuído em pequenos potes, a serem entregues aos mais próximos. Apesar de terem um pouco “dele” por perto, de que vale um pote de areia?

A maior parte da areia foi jogada ao mar e levada pelas águas e com a força das ondas, exalou-se a “sua” essência pelo ar.

Hoje “ele” é composto apenas de energia e luz. Agora todas as manhãs, quando vou ao espelho, noto que o espelho é transparente.

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